“Agora eu só participo de coisas onde as pessoas estão dispostas a fazer um incêndio.” Esta foi uma das brilhantes frases ditas por Monique Evelle na live #fazchover dessa semana com a Priscilla Erthal. Monique é idealizadora da Desabafo Social, laboratório de tecnologias sociais e sócia da SHARP, hub de inteligência cultural. Reunimos aqui os 9 principais insights do bate-papo com essa empreendedora que faz chover. Confira!

1. O que a gente chama hoje de empreendedorismo as mulheres negras da periferia chamam de sobrevivência

Esse ponto nunca foi tão real quanto agora na pandemia. Não é romântico ter 7 milhões de mulheres fora do mercado de trabalho. E o empreender para muitas delas não é questão de escolha, mas uma consequência da precarização. Tem um lugar para mulheres negras e periféricas que nunca foi racionalizado. Elas precisaram fazer para existir e a existência ainda não é real, elas lidam com a sobrevivência. Surgiu uma cortina de fumaça colocando pessoas negras periféricas nos holofotes, mas não é legítimo, já que não dão credibilidade e nem dinheiro para elas. Pequenos empreendedores negros são os que estão com maiores dificuldades na pandemia. Muita gente já estava nadando em alto mar e com o COVID tudo piorou. É preciso voltar várias casas para fazer funcionar. O processo é divagar e exaustivo. Deveria ser óbvio, mas são barcos diferentes há muito tempo.

2. Cooperação não é tendência

A distribuição de renda é grande pilar do Desabafo Social, laboratório de tecnologias sociais aplicado à geração de renda, comunicação e educação e foi idealizado pela Monique. Quando o dinheiro chega para o Desabafo e outras iniciativas pretas e periféricas isso é automaticamente distribuição de renda. Quando a gente coloca dinheiro nas mesmas startups vai acontecer o que sempre acontece com os unicórnios: na primeira crise começa a demitir pessoas. Eles não vão nessa lógica porque desde sempre trabalham em comunidade porque são periféricos. A lógica de solidariedade é espontânea. 

3. É difícil falar de racismo com pessoas brancas por conta de 3 fatores

Primeiro porque elas acham que são universais. Monique é empreendedora preta enquanto uma pessoa branca só é empreendedora. Ninguém coloca na manchete: empreendedor branco fez isso. É preciso racializar e pensar no que é preciso fazer para dar um próximo passo. Em segundo lugar, pretos e periféricos não têm nome e sobrenome. Há uma dificuldade de falar o nome e acabam usando termos racistas. Por fim, um outro fator é a circulação dos espaços. Desde criança, as pessoas pretas são ensinadas a não abrir a bolsa dentro dos espaços ou mesmo correr na rua. Tanto faz se têm dinheiro, a raça vem primeiro. As pessoas brancas podem apoiá-las comprando, compartilhando, conectando pessoas ou fazendo cursos. Existem diversos caminhos. A gente precisa parar de personificar cada indivíduo, a sociedade é racista. Não podemos ser omissos a isso. Todo mundo tem local de fala. A partir disso, a gente conversa, troca e aí faz funcionar. As narrativas são plurais porque somos diferentes.

4. 90% que está na internet é fogo de palha e a Monique agora só participa de coisas onde as pessoas estão dispostas a fazer um incêndio

Monique diz que precisa fazer o exercício de se livrar da culpa. A gente quer carregar o mundo e acaba pegando a culpa do outro. Mas se o outro não quer se movimentar, o problema é dele. Na hora do vamos ver ninguém aparece. Pensando nisso, a Monique está lançando um novo projeto e deu um spoiler para gente. A @inventivos.co surge para criar a realidade que a gente quer viver focando nos 10% que querem fazer. Ninguém vai sustentar seu negócio só sendo seu amigo. Muitas vezes elas compram um produto no início, querem ajudar e às vezes não falam o que acham para não ofender.

5. As pessoas têm as mãos sujas de sangue na internet

Monique conta que aprendeu a parar de forma atrasada. Gerenciar negócios e a vida é um desafio. Hoje, ela conseguiu tirar pausas longas. E tem coisas que ela não gostaria de somatizar, mas que são necessárias. A internet é perversa e as pessoas não se responsabilizam. É preciso se responsabilizar por tudo aquilo que digita. E muitos desistem por conta da sociedade. A Monique escreveu recentemente uma carta de despedida e alertou logo no início que poderia ser um gatilho. A carta foi muito planejamento e escrita justamente para alertar às pessoas das suas responsabilidades. A cultura do cancelamento é muito tóxica. Pessoas destrinchando ódio e querendo o fim de pessoas. Podemos não concordar com as atitudes de alguém, mas não podemos anular a existência de ninguém.

6. A gente precisa sentir a vivacidade principalmente no lugar de mortandade

Monique comemora tudo. De onde ela veio e onde chegou. Monique está escrevendo seu 3º livro sobre comemorações, felicidade e como ser clandestinamente feliz no meio de uma pandemia. Todo mundo na pandemia está nesse lugar de ser clandestino. 80 mil pessoas mortas e mais de 2 milhões de infectados, mas os sonhos se realizam. Coisas que ela não esperava aconteceram no meio de uma pandemia. Estamos em um lugar de mortandade, mas tem pessoas vivas e a gente precisa sentir a vivacidade principalmente no lugar de mortandade. 

7. Compre para incentivar o trabalho de pessoas negras e periféricas

Reconheça o valor do negócio da pessoa. Ninguém pechincha o valor de uma roupa, por exemplo, com grandes empresas. Tem gente que já conhece empreendedores periféricos e tem pessoas que ainda não. Compartilhe o acesso indique o empreendedorismo negro, até mesmo para fortalecer a rede. Pessoas não negras só são grandes ícones porque existem citações. Com pessoas pretas não. As pessoas copiam e nem dão os créditos. Comece a divulgar e fazer eternizar no lugar de citação assim como a branquitude faz. 

8. Falar que ser feliz fazendo o que ama é perverso com o outro lado

É desonestidade com o mundo dos negócios achar que a gente está na mesma régua. Monique não acredita em meritocracia e as pessoas sempre tocam no ponto que ninguém tem as mesmas ferramentas. Mas a gente não fala da pessoa que é meritocrática e o que pode acontecer. O discurso meritocrático pode levar as pessoas que acreditam nisso à sonegação de impostos. Elas têm tanta certeza que fizeram tudo sozinhas que não vão querer pagar impostos. Monique acredita que existem pessoas que se movimentam mais que outras, mas enquanto elas não tiverem as mesmas ferramentas fica difícil falar de meritocracia em um país tão desigual.

9. É difícil não cair no vício e visibilidade do holofote 

É precisa sair do lugar do ego. É difícil não cair nessa armadilha. Em muitos eventos as pessoas só falam delas, mas e aí? Para quem não esteve no palco e vai ganhando visibilidade, isso vai te viciando em um ciclo péssimo onde você não consegue nem mais trabalhar direito. Sem contar que muitos eventos pegam uma pessoa periférica para falar e vira quase que uma seita. O lugar da visibilidade é perverso por causa disso. Quando a luz está muito forte a gente pode não enxergar a realidade. E tem coisas que não precisam ser publicizadas. A solução tem que ser rápida o suficiente porque sempre vai ter alguém que está precisando daquilo.

10. Que bom voltar para casa e ter a possibilidade de ouvir sim

Monique tem uma mãe e um pai que nunca a paralisaram. Eles nunca disseram que ela não podia. E isso sempre deixou a Monique em movimento desde criança. Quando não podia fazer determinada coisa agora, ela foi incentivada a pensar em solução. Nao era nao tem e acabou no ambiente familiar. Era um faz o que você quiser que vai ser gigante. 

Espero que tenha gostado dos insights de hoje. Se você perdeu a live com a Monique Evelle, clique aqui e assista no nosso Instagram. E não perca as Lives Jeito Organica, Faz Chover e Líderes Corajosos. Elas acontecem todas as segunda, terças e quintas-feiras, respectivamente, no Instagram da Organica. Aproveite para seguir a gente por lá e até a próxima!

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